O edifício designado de “Casa Cor de Rosa” revela-se um espaço cheio de história. Sendo ele uma das mais nobres edificações do centro histórico da vila, mostra-se um belo exemplar da arquitetura neoclássica.
Este edifício faz parte da memória coletiva da vila. Mandada construir por Manuel Francisco Gomes, no seculo 19, comerciante e proprietário de barcos de transporte no guadiana. O piso de baixo era utilizado como armazém para fins comerciais, já o piso de cima era exclusivo para a habitação.
Mais tarde este palacete passou para as mãos do seu filho, o famoso “Doutor Gomes” um reconhecido médico em toda a região, que para além de habitar a casa, aqui formou um pequeno consultório, devidamente equipado para a época, onde dava grande parte das suas consultas. Desde a cura de simples constipações até à valia de arrancar dentes, muitos são aqueles que guardam memórias da casa e das diligencias do Dr. Gomes, conhecido por dominar várias especialidades médicas.
O projecto
Todo o projeto de reabilitação desta edificação liderado pelo ilustre Arquiteto José Alberto Alegria, revela uma preocupação em manter o rigor e respeito pelo sítio e sua envolvente. Este edifício viu recuperados muitos dos seus detalhes arquitetónicos e decorativos de outrora, nomeadamente madeiramentos, abóbadas, arcarias, gradeamentos, painéis decorativos bem como a sua grande chaminé. Grande parte destes interligados com novas estruturas de apoio de modo a reforçar a construção e a proporcionar uma maior segurança ao edifício. Sem esquecer as acessibilidades que foram contruídas para que seja possível o acesso a pessoas com mobilidade condicionada. A intervenção realizada apostou na valorização da ambiência mediterrânica, tanto na requalificação do edifício como na sua decoração.
Os elementos decorativos respeitam uma discreta elegância e uma evidente interligação com o passado mouro desta vila. A sustentabilidade é também uma máxima a adotada. Foi importante implementar um sistema de gestão de água que faz uma utilização sábia e sustentável da mesma. Na cobertura encontram-se canais que recolhem as águas pluviais que serão transportadas para um tanque de decantação e posteriormente encaminhadas e depositadas numa enorme cisterna, para que mais tarde possam ser utilizadas. Foi uma preocupação assegurar um equilíbrio estético com a moldura arquitetónica já presente neste edifício recuperado. Pormenores como o mobiliário, os utensílios, os tecidos, as molduras, iluminação, entre outros, foram cuidadosamente pensados para proporcionar uma experiência plena de Hammam & Casa de Chá.
ESPAÇOS
Uma visita guiada ao Hammam & Casa de Chá
Jardim
Aqui poderá disfrutar de um chá ou, simplesmente, dar curto passeio rodeado de ervas, árvores e flores tipicamente mediterrânicas e apender sobre elas.
Espaço de chá
Com um mobiliário que lhe confere o aspeto de um tradicional salão de chá marroquino, onde beneficia de lareira com recuperador de calor e onde também poderá ver um pequeno painel mural de zellijs tipicamente decorado.
Vestiários
São locais espaçosos onde o banhista pode deixar os seu pertences no cacifo e vestir a indumentária necessária para os banhos.
Sudatório | Sauna a vapor
Nesta sala quente, poderá disfrutar de uma sauna a vapor, onde numa cama de pedra receberá a limpeza e esfoliação profundas.
Tepidário | Piscina
Nesta divisão de águas tépidas, aproveita e relaxa enquanto aguarda a massagem de óleos com aromaterapia.
Sala de Repouso
Aqui pode disfrutar e relaxar deitado em camas ou poltronas, hidratando-se para compensar os líquidos expelidos pelo organismo durante o banho.
Sala de leitura
Este é um recanto destinado a leitura temática sobre o ritual do chá e infusões mediterrânicas, gastronomia árabe e a sua ligação aos tempos de lazer.
A visão do Arquitecto José Alberto Alegria
- A reabilitação de um dos mais relevantes edifícios históricos da Vila Velha de Mértola, decorreu da vontade do Município de aí instalar novas valências relacionadas com vivências patrimoniais do período do Al Andalus, relacionadas com os usos da água. Daí resultou a decisão de nessa antiga residência familiar passar a funcionar um complexo de banhos árabes tradicionais – hammam – apoiado por apoios de sala de chá|cafetaria e de um jardim de lazer.
- A articulação espacial dessas novas funcionalidades foi assim proposta pela equipa de projecto:
- Instalação no piso térreo dos vários espaços integrantes de uma unidade de banhos árabes (hammam), com acesso directo e independente a partir do arruamento a sul.
- Instalação no piso superior e nos pátios/jardins exteriores dos vários espaços integrantes de uma casa de chá associada aos sabores mediterrânicos.
- Articulação da zona dos pátios/jardins exteriores e pavilhões de apoio desta Casa Cor de Rosa com os espaços exteriores da Casa Branca que lhe está contígua.
- Respeito pela pré-existência arquitectónica, considerando a sua especificidade e valor patrimonial na malha urbana, daí derivando:
- manutenção da estrutura exterior de alvenaria do edifício principal e dos seus elementos decorativos mais marcantes;
- manutenção da tipologia da cobertura, não obstante a sua substituição integral;
- manutenção da tipologia das fenestrações exteriores deste edifício;
- manutenção do conjunto estrutural interno constituído pelas duas arcarias monumentais do piso inferior e pela correspondente sobreposição do acesso vertical ao piso superior;
- reafirmação do ambiente mediterrânico dos pátios/jardins posteriores.
- Revisitação e concretização dos modos específicos de tratar os Arquétipos da Natureza, na lógica comum das arquitecturas tradicionais do Mediterrâneo:
- a Terra – presente nas estruturas de terra crua ou de terra cozida artesanal
- a Água – presente nos sistemas da sua recolha e armazenamento e ainda na sua valorização estética.
- o Fogo – presente tanto nas zonas específicas da sua utilização (lareira, cozinha, churrasqueira), como na transformação de outros materiais
- o Ar – presente nos sistemas de passagem e ventilação (chaminés, fenestrações, friestas e painéis de moucharabiehs).
- Implementação de princípios e soluções da geo-arquitectura meridional, nomeadamente a nível de:
- estrutura do Pavilhão do Jardim em adobes estabilizados de terra crua
- estruturas de cobertura em terra cozida artesanal (novas abóbadas tradicionais executadas segundo técnicas ancestrais, no caldarium e tepidarium do hammam e no pavilhão do jardim).
- rebocos de cal próprios de zonas de água
- Recriação de um jardim mediterrânico onde as espécies vegetais aromáticas e o rumor da água da fonte são dominantes.
- Quis o Município de Mértola que nesta peculiar e tão relevante Intervenção fosse assegurada a coerência entre a lógica do Projecto Arquitectónico e as propostas de Design dos Interiores, o que se alcançou a nível de:
- Continuidades de traçados reguladores e de geometrismo
- Continuidades de materiais vernaculares regionais
- Continuidades cromáticas e de texturas
- Dest’arte foi intenção assumida pelo autor dos dois projectos introduzir nos elementos do mobiliário, nos têxteis e noutras peças decorativas, alguns elementos formais que se vão repetindo, de espaço em espaço, tanto associados à imagem corporativa deste Hammam de Mértola, como ao geometrismo mediterrânico, criando uma linha de continuidade facilmente perceptível pelos respectivos utentes.
- Utilização preferencial, em todos os níveis de definição deste edifício, de materiais tradicionais e vernaculares que propiciem também resultados térmicos e ambientais associados aos princípios da arquitectura sustentável, do recurso a energias renováveis e a regras de energia solar passiva.
- O recurso preferencial à utilização dos saberes de artesãos locais em múltiplas soluções:
- Reabilitação de madeiramentos e criação de novas carpintarias
- Reabilitação de gessos esculpidos
- Reabilitação de gradeamentos e ferragens
- Reabilitação de azulejaria tradicional
- Aplicação de mármores do Alentejo
- Reimplementação do antigo sistema de reaproveitamento das águas pluviais, tanto a nível dos algerozes, como a nível dos espaços de armazenamento (cisternas). Reconhecendo o valor da água como elemento patrimonial maior das civilizações do mediterrâneo, temos aqui uma existência articulada assaz interessante entre a recolha, o armazenamento e a sua sábia utilização.
- Criação em todo o edifício e espaços exteriores de condições de acessibilidade para pessoas com mobilidade condicionada (homelift, instalações sanitárias adaptadas, desníveis suaves, etc.).

























